Saturday, January 31, 2009

traído

atacado pela tosse matinal, agachou-se na sanita e tomou uma pose fetal que pensava como solução. Quando tossiu novamente, desta feita de forma mais violenta, a pose que assumira causara uma tal amplificação tremenda do efeito, que no contorcer encolheu anormalmente todo o corpo e viu-se preso de cabeça enfiada dentro da sanita frente a frente com as suas parte baixas.

Num espamo de dor inarrável, é interessante notar, que ao invés de considerar grave - ou no mínimo estranho - toda a situação, varreu-se-lhe um sentimento de alívio de estar de roupa interior, evitando assim o que seria um momento constrangedor de proximidade de facto com o seu sexo.

Ao contrário do que seria de esperar, a percepção clara da gravidade física em que se encontrava não foi de todo abandonada da continuidade do sentimento de alívio de estar com roupa interior. Porque até na eventualidade de um resgate essa felizarda decisão de não ter decidido evacuar - como era seu habito matinal - permitiu-lhe manter os boxers onde estão e assegurar que os que viriam em seu auxílio não especulassem sobre os verdadeiros motivos daquele tão bizzarro acontecimento.

Questiono-me, se por acaso esse persistir do alivio, não consistir quase numa boia de salvação, uma luz ao fim do túnel, que evitava que o panico de estar com dores excruciantes e inumanas lhe invadisse a mente e provocasse um espasmo maior na tentativa de se libertar, causando concerteza ainda mais danos - quiçá irreparáveis e até mortais - a um estado de já lastimável estrutura física.

Não passou muito tempo até que sufocasse e se finasse.

E pergunto-me se nos breves segundos finais da sua existência se terá apercebido - e até tentado evitar sem sucesso - a erecção que resulta comunmente de mortes por sofucamento deste género.

1 comment:

vieira calado said...

Parece que sim.

Agora Sati.

Quando fui para França não conhecia.
Tive a dita de viver um tempo com uns amigos, um dos quais tirava um doutoramento em música, sobre Eric Sati.

Escusado será dizer que ouvi tudo, ou quase tudo desse músico (extravagante) mas talentoso.

Um abraço.