Friday, January 9, 2009

jornada

Sucinto peregrino,

leva me este punhado de saliva

a uma boca que consideres articulada.

Pede-lhe em troca de uma promessa sincera

- cria tu uma do teu coração -

o favor de a levar contigo.

De seguida procura com dedicação

uma pessoa nervosa, um corpo irrequieto

e entrega-lhe a fórmula que agora uniste.

Em troca pede-lhe os olhos

e coloca-os no topo da maior árvore que encontrares

mas cuida em vira-los para o céu

- concerteza que sossegarás e contentarás essa alma.

Leva então depois esse corpo cego,

mais a saliva e a boca preparada,

até um declive ou beiral que te dê

um boa e satisfatória linha de horizonte.

Aí, retira com cuidado as vontades do teu peito

e com a outra mão segura os teus olhos.

Abandona enfim o teu corpo peregrino e junta o que te pedi

à fórmula que foste unindo na tua jornada.

Abre os olhos,

não procures atrás o teu corpo,

aqueles outros olhos errantes que colocaste no topo da árvore

ou quem tinha uma boca desperdiçada

ou até mesmo eu, que te dei saliva.

E agora

que és feito de tudo,

abre os olhos

e diz o tudo que tens em ti.


e sê feliz!

1 comment:

vieira calado said...

Somos, na verdade, feitos de tudo.

Mas ser feliz, já é outra conversa...

Um abraço.