Sunday, February 1, 2009

fisicalidade expressiva

Não fomos de facto feitos para nos observar.


Fomos dotados com a capacidade cognitiva

da noção ( ou pretensão) do que somos

mas impedidos de nos vermos como nos vêm os outros.

Até mesmo o espelho, na inversão tácita do reflexo

corrompe a percepção exacta de nós como um outro.


Quanto pagariam ( ou que dariam em troca ) os mais curiosos

se por acaso pudessem olhar para si mesmos de soslaio ,

sem serem notados ,

numa mesa de café a duas ou três de distancia.


Nós a olhar para nós, fazendo-nos outros de nós próprios.


Que ideia perigosa!

Que terrivel tentação!

Saturday, January 31, 2009

perguntas inabsurdamente advertidas - quatro ( 4 )

Qual de nós só sabe contar até sete?

O mar que é observado ou nós que o observamos?

bode expiatório

Teimoso como era, irritado por ter acendido o cigarro ao contrário, insistiu em fuma-lo dessa forma até ao fim, inalando os fumos agoniantes e asquerosos que dele emanavam, para grande espanto e repulsa dos presentes.

Anos mais tarde, no leito de morte, padecendo de cancro dos pulmões, culpara cheio de remorsos esse dia maldito em que insistira nessa estupidez que nunca mais havia repetido.

De punho erguido, cerrou a mão em fúria amaldiçoando a industria tabaqueira pelos quimicos perigosos presentes nos filtros e pela ténue diferença que existe na cor do papel do filtro e do cigarro propriamente dito, que lhe causaram a confusão daquele dia e a teimosa acção de, em jeito de revolta, o fumar até ao fim como forma de protesto.

E temendo o perigo da fraca encomenda aos céus, juntou as mãos ao peito e murmurou um perdão, um pedido qualquer que foi diminuindo a fraca voz e se finou por fim num suspiro e nums olhos arregalados que fitaram o tecto.

Ele! Que fumava 2 maços por dia e era ateu confesso.

perguntas inabsurdamente advertidas - terceira ( 3 )

se por acaso um ser invulgarmente munido de uma força herculeana, aborrecido com a vida batesse com a porta de casa, vindo da rua, e com uma fúria latejante iniciasse um processo destrutivo nervoso em que trituraria com as mãos e ao pontapé todo o recheio da casa, pontapeando e usando os detritos para causar ainda mais destruição, arremessando camas e utensílios domesticos contra as paredes, acabando por encetar na busca da destruição das mesmas e atingindo o sucesso de fazer delas entulho e desfigurar por completo todos os elementos que carecterizam uma casa como sendo casa, se apercebesse de repente que no meio da destruição absurda a porta por onde havia entrado era a unica coisa ainda de pé....

... Saíria/entraria ele de novo e recomeçaria na senda de destruição por se encontrar novamente no exterior de que fugia há instantes? ou simplesmente derrubava a porta e resignava-se por estar na rua?

soluções

A calvície de Luís, deixou de o perturbar socialmente, quando iluminado por um estranho sonho, se sentiu compelido a construir uma estranha estrutura constituída por espelhos, que segurada à sua nuca e sobre a cabeça, lhe conferia um efeito surpreendente de multiplicação de carecas, uma espécie de aureola de pele sobre as mesmas pernas, que o seguiam para todo e qualquer lado que decidisse.

Nunca mais se sentiu sozinho na sua revolta, e confiante prosseguiu para o problema seguinte, que era de estar com tão absurdo aparato na sua cabeça.

E para esse problema, esperava o outro sonho que lhe daria com certeza a resposta. Faltava só sonhá-lo.

traído

atacado pela tosse matinal, agachou-se na sanita e tomou uma pose fetal que pensava como solução. Quando tossiu novamente, desta feita de forma mais violenta, a pose que assumira causara uma tal amplificação tremenda do efeito, que no contorcer encolheu anormalmente todo o corpo e viu-se preso de cabeça enfiada dentro da sanita frente a frente com as suas parte baixas.

Num espamo de dor inarrável, é interessante notar, que ao invés de considerar grave - ou no mínimo estranho - toda a situação, varreu-se-lhe um sentimento de alívio de estar de roupa interior, evitando assim o que seria um momento constrangedor de proximidade de facto com o seu sexo.

Ao contrário do que seria de esperar, a percepção clara da gravidade física em que se encontrava não foi de todo abandonada da continuidade do sentimento de alívio de estar com roupa interior. Porque até na eventualidade de um resgate essa felizarda decisão de não ter decidido evacuar - como era seu habito matinal - permitiu-lhe manter os boxers onde estão e assegurar que os que viriam em seu auxílio não especulassem sobre os verdadeiros motivos daquele tão bizzarro acontecimento.

Questiono-me, se por acaso esse persistir do alivio, não consistir quase numa boia de salvação, uma luz ao fim do túnel, que evitava que o panico de estar com dores excruciantes e inumanas lhe invadisse a mente e provocasse um espasmo maior na tentativa de se libertar, causando concerteza ainda mais danos - quiçá irreparáveis e até mortais - a um estado de já lastimável estrutura física.

Não passou muito tempo até que sufocasse e se finasse.

E pergunto-me se nos breves segundos finais da sua existência se terá apercebido - e até tentado evitar sem sucesso - a erecção que resulta comunmente de mortes por sofucamento deste género.

das estranhas indecisões, erradas certezas!

Serrou metade do braço esquerdo e pendurou-o lado a lado com o sobretudo que ainda pingava.

Com a mão que lhe sobrava ainda agarrada ao corpo, sacudiu desajeitadamente o chapéu de chuva, primeiro encharcando o chão todo do hall de entrada e depois deixando-o cair no soalho flutuante, causando um baque enorme àquela hora da madrugada. Mas ainda na tentativa de controlar o desarranjo, tentou alcançar sem sucesso o cabo do chapéu, que lhe fugira como se estivesse vivo e perdeu o equilibrio de forma circense, escorregando ora no sangue que escorria do braço dependurado ora na água que trouxera da chuva e que se espalhava como um díluvio bíblico pela casa fora.

Já no chão, ouvindo ao fundo um berro vizinho de fúria justificada, ponderou - meio atónito - sobre o que acabara de acontecer e tarde demais apercebeu-se que havia serrado o braço errado, pois esquecera-se que era canhoto!

Friday, January 30, 2009

falso rei em quintal alheio

Cravou-se breve como uma raiz fraca

a um chão poroso e liquefeito

e sacudiu o queixo acima dos ombros

bradando justiça gesticulada,

brazonando o espaço conquistado

com uma brejeirice sem sentido

fingindo ser torre de pedra.


Na ansia de ficar

perdeu a noção de fugir

e dois braços lhe sustiveram a respiração breve.


A precoce coisa definhou.


Numa mirrada forma de sumir

tomou-se de bronze apapelado

e a desmembrada coisa fez-se detrito

para um vento que passava.


Sobrevoou o burgo fingido

e o castelo verde regado que acreditou como seu.


Mas o vento diz

que quase nada levou naquela tarde...

e se por acaso algo de importante era como se diz por aí

então esse algo guardou tudo isso para si!

Tuesday, January 27, 2009

confesso/descodifico

Muito de tudo nos cai da boca.


De um céu rosado que não segura palavras,

letras sonoras que o marfim trinca

e que a vontade criteriosa entoa.


Deram me ecos


e em troca bateram-se palmas

para compensar espaços vazios

num coro desarranjado

de linguas paradas.


São ansiosas do segredo das palavras simples

e dos elementos edificantes

de que o vazio não é sábio

e nem o cheio soube alguma vez sintetizar.


E talvez por isso se diga

que palavras leva-as os vento.

Sunday, January 25, 2009

... mas o nada sempre conta para alguma coisa!

incauta pele,

sinistra coisa que envelhece.

relógio do fim

e inicios difusos.

merecedora de afagos

e castigos injustos

dominadora

estátua que termina em si

coisa que não fica de pé

futuro papiro

de papiro pó

e de pó coisa nenhuma...

Wednesday, January 21, 2009

ordenhado

numa casa azul

um pássaro sem asas

e um homem sentado a comer um pêro


um tecto descascado

um animal improvavel

e alguém a incomodar com uma pergunta


parece que chuva entra e chuva deve ficar

que o animal são afinal animais

e que a pergunta é uma proposta para rebanhos

Monday, January 19, 2009

perguntas inabsurdamente advertidas - segunda ( 2 )

Caso a luz ( a do sol em particular )

inundasse absolutamente um plano

e não lhe atribuísse a possibilidade mínima de sombra,

não criaria ela o anti forma perfeito?

Mas seria mesmo perfeita a explicação desta suposição,

para não falar mesmo de ridícula,

quando apresentada a um invísual?

- Clarifico não respondendo, pois adverti tratarem se de perguntas....

Ao imaginar um deserto, para quem tem a faculdade da visão

não será demais concluir que o nota com dunas, arcos e ondas de areia,

pelo contraste que a luz e a sombra lhe dão?

Não será esta a faculdade máxima da forma?

e por isso mesmo questiono novamente:

Mas quem não vê, que importancia tem a sombra?

A forma não existirá na mesma?


E concluo perguntando....

se para quem vê, consegue-se ludibriar com a ideia da anti forma luz/sombra,

como se dissimulará a forma perante o tacto?

perguntas inabsurdamente advertidas - primeira ( 1 )

se dois dedos se colassem,

- e às pontas destes me refiro -

poderiam eles formar o início de uma mão?

Negariam eles a proveniência

de duas mãos distintas

ainda que fossem do mesmo corpo?

Questiono também

- e por sequência de ideias -

caso fossem dedos de pessoas diferentes

formariam elas uma siamesa criatura?

Friday, January 9, 2009

jornada

Sucinto peregrino,

leva me este punhado de saliva

a uma boca que consideres articulada.

Pede-lhe em troca de uma promessa sincera

- cria tu uma do teu coração -

o favor de a levar contigo.

De seguida procura com dedicação

uma pessoa nervosa, um corpo irrequieto

e entrega-lhe a fórmula que agora uniste.

Em troca pede-lhe os olhos

e coloca-os no topo da maior árvore que encontrares

mas cuida em vira-los para o céu

- concerteza que sossegarás e contentarás essa alma.

Leva então depois esse corpo cego,

mais a saliva e a boca preparada,

até um declive ou beiral que te dê

um boa e satisfatória linha de horizonte.

Aí, retira com cuidado as vontades do teu peito

e com a outra mão segura os teus olhos.

Abandona enfim o teu corpo peregrino e junta o que te pedi

à fórmula que foste unindo na tua jornada.

Abre os olhos,

não procures atrás o teu corpo,

aqueles outros olhos errantes que colocaste no topo da árvore

ou quem tinha uma boca desperdiçada

ou até mesmo eu, que te dei saliva.

E agora

que és feito de tudo,

abre os olhos

e diz o tudo que tens em ti.


e sê feliz!

Tuesday, January 6, 2009

mãe sem mãe

Fogem lhe as fúrias por entre os dentes.

Espreme as mãos no ventre,

humedece as unhas zangadas

com o suor do sangue que ferve.


Não brilha luz aqui!


Já não é amor que queima dentro

nem sol que aquece fora,


é petróleo,

é fuligem

é negrume que faz as estradas que não escolhe caminhar.


São pés descalços

e zangas por companhia


e cada cara é um filho que não conhece

nesta sede de respirar que envelhece

homem

somos fúria

somos peso farto

sobre fome de estar



uma queimada palma

sobre terra cheia


uma solúvel praga

de bocas pensantes

Monday, January 5, 2009