Wednesday, December 15, 2010

"Tem papel de parede na face interior da sua cabeça, colada com goma rançosa e ainda por cima por mãos pouco hábeis e dadas ao descuido e à imperfeição" explicou lhe a densa criatura com ar douto. "o truque é cortar o veio ao longo do seu comprimento e reaplicar uma goma mais fina de modo a curar lhe essas dores de cabeça" e terminou dizendo com firmeza "se tentar arrancar o papel à força vai lhe puxar a cara para dentro e só vai ter olhos para o que tem dentro da sua cabeça" acenei que sim.
quando abria a boca
os dentes eram muralhas
tal qual os dedos dos pés
que cerravam
numa contrição nervosa

os ombros de tão descaídos
pareciam umas estranhas ancas
colocadas a meia haste
num torso já de si desactualizado

as mãos numa prece
eram já um bloco quadriculo
que assentava numa mesa
pisando papeis não pisando

dos joelhos nada a apontar

mas a cabeça
...essa
carece de outros versos
a mãe de todos os ventos
cresce primeiro nos pelos dos braços
que eriçam

só isso

ocorre agora que talvez
a electricidade é a mãe de todos os pelos
eram cheiros

eram porque parece que passaram
ou como ursos
resolveram-se hibernando
é arcaico
tudo tem pó
parece perro o movimento
até mesmo aquele
que parecia ensinado

os açaimes são agora coloridos
apesar de instáveis à luz do dia

há um sujo no céu
parece
não tem cara de nuvem
nem aspecto de tempestade

é sujo só
mas também ele perro
também ele instável à luz do dia

Tuesday, October 26, 2010

tinha orgulho especial
em sentar-se de costas
deixando a nuca descoberta
para os seus convidados
enquanto dizia algo fenomenal
incentivando a plateia
a absorver por completo
uma linguagem corporal
limitada ao facto de estar sentado

não movia as mãos
que permaneciam
- ao que parecia -
deitadas sobre o seu colo
e toda a atenção era puxada
para o inicialmente leve
mas depois angustiantemente claro
movimento da pele e dos nervos
de um pescoço hiperactivo.

era quase repulsivo
sentir uma voz projectada para a parede
a falta de atenção e desgosto para com os seus convidados
imperceptível a razão pelo o fazia
e o que dizia não era fenomenal
era grostesco pelo absurdo e pela falta de propósito.

seu sonho era ser cozinheiro
nunca teve sucesso como tal
mas sendo tudo o resto mau nessa noite
a comida servida era por comparação... simplesmente excelente
mesmo que nada de especial no fundo fosse.

e diminuindo cada vez mais
os dispostos a tal idiotice
ele tornara-se finalmente
um chef de excelência
para uma elite
servindo bitoques.

halomórfico

cedo viveu absorvido
quem diz cedo pode bem arriscar dizer que sempre.
mas sempre é algo que nem o próprio sabe
a não ser pela boca de alguns
que para eles o ponto zero da vida dele
que inicia o conceito de sempre
pode ser inconclusivo
pois é sabido que muitas das vezes
é comum recomeçar-se.

por isso algures viu-se absorvido
e quem diz absorvido pode arriscar também dizer embrenhado
mas porque às vezes uma coisa só não define um momento
ele bem que podia estar absorvido e embrenhado.
mas a certeza da adjectivação depende da palavra inventada
e sabemos bem que por vezes não existem palavras
para descrever o que se sente
e inventar palavras novas pode parecer idiota
e de nada valia dize-las a quem o rodeava.

respondia sempre vago... não sei
deixou-se inerte
a escassas moléculas da superfície

parece que paira num espaço semi

calçou se de quases
e foi quase que saiu confiante.

mas deixou se ficar
inerte
a escassa moléculas da superfície

parece...

Monday, October 25, 2010

colaram-se os dedos
a uma esquina inoportuna.
colaram-se os olhos de outros
em mim ofegante.

o meu corpo curvou-se sobre si mesmo
e solidificou tenso
confundindo me com a cor do passeio.

Sou duas cores de passagem
de um amarelo fumador do prédio de cidade
a escamar de tantos gritos de atenção
para um cinza rançoso
que merecia mais pés descalços
para lhe retribuir a ternura
de se deixar ser pisado.

não me demoro
estou apenas em casa

Sunday, October 24, 2010

E assim se perde o amor
Pelas formas mais simples do deixar
Falo simplesmente de esquecer de amar

Wednesday, June 23, 2010

as fúrias
são laranjas viçosas

sumos violentos
com sabores intrigantes

Monday, June 7, 2010

se o sufoco falasse

Se um sufoco falasse, se uma insistência dos outros fosse parasitária, se um acaso fosse propositadamente repetido e a energia pelo consumo supérfluo do transeunte anónimo se esgotasse toque após toque… então que triste figura de desespero ali encostado, a uma porta já de si esgotada pelo uso, que depositado e desapontante jogo desequilibrado de vontades, onde toda a narração ocorre… dentro de nós… mas fruto de todos os outros.