Falava com a rapidez adequada. Não perdia muito tempo com a respiração ou com as pausas, necessárias para a compreensão das suas palavras, ou ideias, por terceiros. É pertinente pensar, se quereria realmente, que a compreensão fosse um ponto determinante na equação, que ele determinara como vital na sua vida. Uma cruzada pessoal em insistir em falar inipterruptamente.
Para competir com as luminescências das 24 horas do planeta, criou na sua boca duas linguas, raiz para duas mentes e quatro olhos. Cabelos diferentes - um louro outro ruivo - sotaques e maneirismos distintos. Um educado e o outro - como seria de esperar - inconveniente.
Vendo que ainda só tinha dois pés, por provável erro de duplicação, decidiu enterrá-los na terra do jardim, que se encontrava arranjado à frente de uma esplanada, que frequentava e onde era conhecido por mendigar.
Decidiu o planeta como vaso, ele como planta e o seu verbo como flor.
E semeou abundante, apesar de por vezes ser podado e re alocado pelas autoridades camarárias ou por transeuntes. Chocados pela frontalidade, não tanto das palavras, mas mais pelas unhas encardidas que os encobria a passagem com indicador ameaçador.
Quando finalmente murchou, morreu ciente da sua escolha, pois não cabe outro fim a quem decidiu ser planta. Mas com pena por não se lembrar se havia dado flor, na dúvida se sequer polonizou quem passava à sua beira e na tristeza de ter gasto todas as palavras e não lhe sobrar nenhuma agora, para testamentar a sua queda de forma sustentável.
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