Wednesday, November 26, 2008

conto desconexo - o impropério - episódio I

Saltou da cama e viu quem lhe ria na cara. Não teve assim tanto tempo para reagir. Cuspiu e foi cuspido. A troca foi justa, não foi uma questão de ver quem deitou a raiva mais espessa, ou quem manchou de forma mais categórica a cara um do outro.

Um pássaro entretanto entrou pela janela e ali ficou como testemunha. Só de quando em quando intervia com palavras sábias e arbitrárias.

Não se queria fisicalidades. Não era o momento para isso. Não era!

Para evitar perseguições de espírito e sonhos suados consequentes, decidiu-se inventar nomes para as injúrias. Um ficou o António e o outro Sénior. António era o ainda deitado.

Doía o braço a António de tanto permanecer de cotovelo contra o colchão, mas apostava na palavra racional da acusação. António fazia toda a sua base no ataque de Sénior ao seu espaço rente ao chão. Sénior tinha decidido ser lagarto fazia 3 semanas. Escorregava frequente e displicentemente - acusava António - quase emborrachando as escamas horríveis que escolhera para ele. Riscava abundantemente o chão flutuante do apartamento novo, que havia arrendado. Largava uma estranha substancia espérmica. António apostava que lhe nasceriam lagartificantes bocas para lhe gritar ao ouvido durante a noite e que não o deixariam dormir. era um truque para o fragilizar e entorpecer o espírito combativo matinal pelo que era sobejamente conhecido.

Sénior ria-se! Por vezes até ameaçava tocar com a língua bifurcada na perna de António, só para o irritar. Era claro que era essa a sua táctica. Mesmo quando admoestado pelo pássaro jurisprudente, até este era relembrado, que a figura a quem se dirigia era reptiliana. Olha que te como e a ultima coisa que decidirás é o tempo da tua digestão!

A batalha não era ganha por ninguém até este momento. Os vizinhos incomodados brandiam vassouras contra o seu próprio tecto. Imagino o estuque. Os baques secos davam harmonia rítmica à discussão que escalava. E António ameaçava que se assumiria oxigénio, intocável, etéreo e incorpóreo. Nem fumo seria para que o escamoso sapudo lhe pudesse cheirar a saída.


Levantou-se e calçou um chinelos molhados, babados pela saliva de ontem, quando ouviu um tremendo impropério por parte de Sénior.

Tuesday, November 25, 2008

aqui!

é bonita esta voz

ela diz-lhe para encaminhar o olhar
para uma terna postura
de fincada perna no local de partida

e ao mesmo tempo
incita a que a outra trema
de antecipação de uma corrida

sem meta ou propósito

diz-lhe também para humedecer os lábios
para usar os dentes

podes cerra-los

não vão existir palavras nem ideias

Saturday, November 22, 2008

mendigo flor - homem vaso

Falava com a rapidez adequada. Não perdia muito tempo com a respiração ou com as pausas, necessárias para a compreensão das suas palavras, ou ideias, por terceiros. É pertinente pensar, se quereria realmente, que a compreensão fosse um ponto determinante na equação, que ele determinara como vital na sua vida. Uma cruzada pessoal em insistir em falar inipterruptamente.

Para competir com as luminescências das 24 horas do planeta, criou na sua boca duas linguas, raiz para duas mentes e quatro olhos. Cabelos diferentes - um louro outro ruivo - sotaques e maneirismos distintos. Um educado e o outro - como seria de esperar - inconveniente.

Vendo que ainda só tinha dois pés, por provável erro de duplicação, decidiu enterrá-los na terra do jardim, que se encontrava arranjado à frente de uma esplanada, que frequentava e onde era conhecido por mendigar.

Decidiu o planeta como vaso, ele como planta e o seu verbo como flor.
E semeou abundante, apesar de por vezes ser podado e re alocado pelas autoridades camarárias ou por transeuntes. Chocados pela frontalidade, não tanto das palavras, mas mais pelas unhas encardidas que os encobria a passagem com indicador ameaçador.

Quando finalmente murchou, morreu ciente da sua escolha, pois não cabe outro fim a quem decidiu ser planta. Mas com pena por não se lembrar se havia dado flor, na dúvida se sequer polonizou quem passava à sua beira e na tristeza de ter gasto todas as palavras e não lhe sobrar nenhuma agora, para testamentar a sua queda de forma sustentável.

três

foge com a certeza
pelo cubiculo frisado

tomba a perna
na pedra que se segue

segura a secura
com o sangue do lábio mordido

cala o suor da testa
com a aspereza da mão

e domina o horizonte
com a vista aguçada

faz tinta da curva do passeio
sustenta-a com uma piada

ri te do reflexo da ocasião
e leva no umbigo o peso de toda a terra.

confessa ao estuque revelador
fica com o vermelho do tijolo

faz te casa

põe te pai

envelhece bem

dois

existe uma pena,
que marcha de boca em boca
a tomar vento a cada momento
só pelo sussurro da palavra

um

não me compete o mundo
não me pertence a sagaz forma de o cuidar
ele não me toma como dono
e eu não lhe quero nem bem nem mal

assustam-me as mãos que o querem tomar
por vezes de tarde
numa esplanada
em segundos, ao café.