Wednesday, December 15, 2010

"Tem papel de parede na face interior da sua cabeça, colada com goma rançosa e ainda por cima por mãos pouco hábeis e dadas ao descuido e à imperfeição" explicou lhe a densa criatura com ar douto. "o truque é cortar o veio ao longo do seu comprimento e reaplicar uma goma mais fina de modo a curar lhe essas dores de cabeça" e terminou dizendo com firmeza "se tentar arrancar o papel à força vai lhe puxar a cara para dentro e só vai ter olhos para o que tem dentro da sua cabeça" acenei que sim.
quando abria a boca
os dentes eram muralhas
tal qual os dedos dos pés
que cerravam
numa contrição nervosa

os ombros de tão descaídos
pareciam umas estranhas ancas
colocadas a meia haste
num torso já de si desactualizado

as mãos numa prece
eram já um bloco quadriculo
que assentava numa mesa
pisando papeis não pisando

dos joelhos nada a apontar

mas a cabeça
...essa
carece de outros versos
a mãe de todos os ventos
cresce primeiro nos pelos dos braços
que eriçam

só isso

ocorre agora que talvez
a electricidade é a mãe de todos os pelos
eram cheiros

eram porque parece que passaram
ou como ursos
resolveram-se hibernando
é arcaico
tudo tem pó
parece perro o movimento
até mesmo aquele
que parecia ensinado

os açaimes são agora coloridos
apesar de instáveis à luz do dia

há um sujo no céu
parece
não tem cara de nuvem
nem aspecto de tempestade

é sujo só
mas também ele perro
também ele instável à luz do dia