Tuesday, October 26, 2010

tinha orgulho especial
em sentar-se de costas
deixando a nuca descoberta
para os seus convidados
enquanto dizia algo fenomenal
incentivando a plateia
a absorver por completo
uma linguagem corporal
limitada ao facto de estar sentado

não movia as mãos
que permaneciam
- ao que parecia -
deitadas sobre o seu colo
e toda a atenção era puxada
para o inicialmente leve
mas depois angustiantemente claro
movimento da pele e dos nervos
de um pescoço hiperactivo.

era quase repulsivo
sentir uma voz projectada para a parede
a falta de atenção e desgosto para com os seus convidados
imperceptível a razão pelo o fazia
e o que dizia não era fenomenal
era grostesco pelo absurdo e pela falta de propósito.

seu sonho era ser cozinheiro
nunca teve sucesso como tal
mas sendo tudo o resto mau nessa noite
a comida servida era por comparação... simplesmente excelente
mesmo que nada de especial no fundo fosse.

e diminuindo cada vez mais
os dispostos a tal idiotice
ele tornara-se finalmente
um chef de excelência
para uma elite
servindo bitoques.

halomórfico

cedo viveu absorvido
quem diz cedo pode bem arriscar dizer que sempre.
mas sempre é algo que nem o próprio sabe
a não ser pela boca de alguns
que para eles o ponto zero da vida dele
que inicia o conceito de sempre
pode ser inconclusivo
pois é sabido que muitas das vezes
é comum recomeçar-se.

por isso algures viu-se absorvido
e quem diz absorvido pode arriscar também dizer embrenhado
mas porque às vezes uma coisa só não define um momento
ele bem que podia estar absorvido e embrenhado.
mas a certeza da adjectivação depende da palavra inventada
e sabemos bem que por vezes não existem palavras
para descrever o que se sente
e inventar palavras novas pode parecer idiota
e de nada valia dize-las a quem o rodeava.

respondia sempre vago... não sei
deixou-se inerte
a escassas moléculas da superfície

parece que paira num espaço semi

calçou se de quases
e foi quase que saiu confiante.

mas deixou se ficar
inerte
a escassa moléculas da superfície

parece...

Monday, October 25, 2010

colaram-se os dedos
a uma esquina inoportuna.
colaram-se os olhos de outros
em mim ofegante.

o meu corpo curvou-se sobre si mesmo
e solidificou tenso
confundindo me com a cor do passeio.

Sou duas cores de passagem
de um amarelo fumador do prédio de cidade
a escamar de tantos gritos de atenção
para um cinza rançoso
que merecia mais pés descalços
para lhe retribuir a ternura
de se deixar ser pisado.

não me demoro
estou apenas em casa

Sunday, October 24, 2010

E assim se perde o amor
Pelas formas mais simples do deixar
Falo simplesmente de esquecer de amar